Viver é um grande desafio. E logo que nascemos temos apenas a certeza de que não viveremos para sempre. Durante todo o tempo de nossa existência física, um sem número de acontecimentos nos marca e são responsáveis pela nossa conduta além de, geralmente, apontar os caminhos que seguiremos nesta jornada evolutiva.
Ainda durante os ensaios da “HMS Pinafore”, fui abordado pelo preparador do coro, que me ofereceu um pequeno papel para a próxima ópera a ser montada pelo grupo, em proporções reduzidas, no saguão do teatro. Uma ópera pequena, de apenas 30 minutos. “Deve ser um papel pequeno, posso dar conta”, pensei, em fração de segundos, e aceitei. Antes não o tivesse feito.
Já havia um tempo estava sem fazer aulas de canto. E o impacto destes meses sem aulas era sentido a cada ensaio no coro. Mas nunca, de forma alguma, o baque poderia sido tão grande quanto foi ao iniciar os ensaios como solista. É claro que os inexperientes tendem a ficar nervosos, tensos e inseguros. Mas comigo não foi apenas insegurança ou tensão. Eu sentia uma verdadeira paúra nos ensaios. Uma coisa horrível que quase me paralisava as pernas, com o suor escorrendo e os músculos tesos. A laringe parecia querer sair da boca e as veias encheriam baldes, se furadas. Seria mesmo muito incomum se a voz saísse a contento com um quadro deste tipo.
Estudava as músicas em casa e o resultado era melhor do que nos ensaios, o que me levou a crer que era apenas o nervosismo que me atrapalhava junto aos demais colegas. Mas não houve jeito de conseguir cantar direito nos ensaios e até mesmo os ensaios cênicos eram prejudicados, já que meus movimentos eram tão amplos quanto os braços do Horácio1. Vi filmes, pedi conselhos a amigos e minha irmã – atores com experiência – e nada de conseguir progresso. O nervosismo, de fato foi o maior vilão. Mas não fora o único.
Após quase dois anos de aulas particulares, fui obrigado a admitir algo em que eu não queria acreditar: meu ex-professor não soube trabalhar minha voz. Natural, até porque eu mesmo não sabia exatamente qual era o meu tipo de voz, já que emito as notas graves de forma interessante e as notas agudas vão além do que tessituras graves alcançam. Contudo, este não foi o motivo que me deixou num misto de enraivecido e chateado, mas, sim, o fato de que ele, com toda experiência e popularidade que possui no meio, não foi capaz de corrigir dois problemas seriíssimos em minha (falta de) técnica: apoio e respiração2. Eu gostaria de acreditar que ele não detectou esta deficiência, mas até alunos de canto puderam identificar o problema. Fica o gosto amargo na garganta por todo este investimento e tempo desperdiçados.
(continua...)




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