Maktub


01/12/2006


O primeiro solo de Paulo Marfes – do céu ao inferno em 4 ensaios

Viver é um grande desafio. E logo que nascemos temos apenas a certeza de que não viveremos para sempre. Durante todo o tempo de nossa existência física, um sem número de acontecimentos nos marca e são responsáveis pela nossa conduta além de, geralmente, apontar os caminhos que seguiremos nesta jornada evolutiva.

 

Ainda durante os ensaios da “HMS Pinafore”, fui abordado pelo preparador do coro, que me ofereceu um pequeno papel para a próxima ópera a ser montada pelo grupo, em proporções reduzidas, no saguão do teatro. Uma ópera pequena, de apenas 30 minutos. “Deve ser um papel pequeno, posso dar conta”, pensei, em fração de segundos, e aceitei. Antes não o tivesse feito.

 

Já havia um tempo estava sem fazer aulas de canto. E o impacto destes meses sem aulas era sentido a cada ensaio no coro. Mas nunca, de forma alguma, o baque poderia sido tão grande quanto foi ao iniciar os ensaios como solista. É claro que os inexperientes tendem a ficar nervosos, tensos e inseguros. Mas comigo não foi apenas insegurança ou tensão. Eu sentia uma verdadeira paúra nos ensaios. Uma coisa horrível que quase me paralisava as pernas, com o suor escorrendo e os músculos tesos. A laringe parecia querer sair da boca e as veias encheriam baldes, se furadas. Seria mesmo muito incomum se a voz saísse a contento com um quadro deste tipo.

 

Estudava as músicas em casa e o resultado era melhor do que nos ensaios, o que me levou a crer que era apenas o nervosismo que me atrapalhava junto aos demais colegas. Mas não houve jeito de conseguir cantar direito nos ensaios e até mesmo os ensaios cênicos eram prejudicados, já que meus movimentos eram tão amplos quanto os braços do Horácio1. Vi filmes, pedi conselhos a amigos e minha irmã – atores com experiência – e nada de conseguir progresso. O nervosismo, de fato foi o maior vilão. Mas não fora o único.

 

Após quase dois anos de aulas particulares, fui obrigado a admitir algo em que eu não queria acreditar: meu ex-professor não soube trabalhar minha voz. Natural, até porque eu mesmo não sabia exatamente qual era o meu tipo de voz, já que emito as notas graves de forma interessante e as notas agudas vão além do que tessituras graves alcançam. Contudo, este não foi o motivo que me deixou num misto de enraivecido e chateado, mas, sim, o fato de que ele, com toda experiência e popularidade que possui no meio, não foi capaz de corrigir dois problemas seriíssimos em minha (falta de) técnica: apoio e respiração2. Eu gostaria de acreditar que ele não detectou esta deficiência, mas até alunos de canto puderam identificar o problema. Fica o gosto amargo na garganta por todo este investimento e tempo desperdiçados.

 

(continua...)

Escrito por Paulo Marcelo às 15h20
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(continuação)

 

O último ensaio foi curioso, já que senti pequenos progressos com a colocação da voz, ao mesmo tempo em que o nervosismo aumentava ainda mais. Os tremeliques pareciam fazer tremer até a voz. Foi então que outra deficiência minha ficou ainda mais evidente, devido ao mesmo nervosismo: minha percepção musical é quase nula. A afinação caia e subia, mas nunca acertava as notas. Nervoso, então, a coisa não ia melhorar nunca.

 

Cheguei para o ensaio seguinte e o maestro me chamou para conversar. Perguntou muitas coisas, explicou outras, concluiu outras mais e disse que não queria que eu fosse exposto a fazer algo ruim, já que eu não estava preparado – não ainda – para um solo. Evidentemente que ele também se preocupou com a qualidade do trabalho do grupo, que tem recebido críticas elogiosas sobre sua evolução, e não poderia por isto a perder por causa de um solista despreparado. A conclusão foi a óbvia: eu estava “demitido” do papel.

 

Naturalmente abalado, mas não surpreso (para quem acredita em intuição, eu praticamente sabia o diálogo que ele teve comigo no dia anterior), já que sou auto-crítico por excelência e reconheço que não fiz um trabalho sequer razoável. Entendo e concordo com a postura do maestro. E a chateação é maior por todo o conjunto de acontecimentos e, principalmente, pela minha incompetência nos estudos. Isto é algo que não passará tão cedo.

 

De qualquer forma, agradeço por todo o apoio que recebi de alguns colegas no grupo e desculpo-me pela falta de preparo. Mais ainda para quem não cria na minha capacidade e que estava certo, apesar da rudeza de atitudes. Agradeço ao maestro e ao nosso preparador, que tiveram toda atenção para comigo e respeitaram meus limites. Agradeço também pela confiança, embora eu não a tenha honrado como devia.

 

A lição maior é o aprendizado de vida que tive. Agora entrei definitivamente na hora da decisão entre seguir com os estudos de canto e aproveitar a boa voz que tenho – isto não sou eu quem digo, creiam – ou dedicar-me a outras atividades profissionais. Esta será a primeira grande decisão de minha vida. E também a mais difícil até o momento.

 

Fiquem em paz.

  

1 – Personagem criado por Maurício de Souza, é um pequeno e simpático dinossauro cujos braços não existem e as mãos são juntas do tronco.

2 – Apoio e respiração: técnicas aplicadas ao canto em geral que permitem a emissão livre e correta da voz.

Escrito por Paulo Marcelo às 15h19
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27/11/2006


A felicidade de Amar e ser Amado

Sim. Insisto em grafar Amar e seus derivados com a inicial maiúscula, mesmo quando não se trata de início de frase. E não me canso de repetir o motivo.

 

Tenho uma concepção que varia da maioria das pessoas sobre o Amor. Enquanto muitos dizem por aí que amam fulano e noutro dia já está amando outro(a), eu faço referência ao Amor sublime, aquele que não escolhe credo, raça, cor ou opção sexual. Falo do Amor que faz pela pessoa tudo o que pode e se esforça por aprender e conseguir fazer o que não sabe. É o Amor que se entrega, que dá de si por inteiro sem esperar do próximo o retorno. Aquele Amor que não é egoísta, não quer ter uma pessoa por saber que ninguém pertence a alguém, mas que procura seu convívio por motivos diversos e complementares. Enfim, o Amor que, creio, rege todo o universo.

 

E baseado nesta concepção, corro o risco de ter um texto deste não somente mal interpretado, mas também muito invejado. E corro este risco certo de que não o faço por soberba, mas porque faz parte da concepção do sublime Amor que este seja dividido e oferecido aos demais, para que sua energia possa se expandir e nutrir quem a recebe com o mesmo Amor. Se Drummond já dizia que “amar se aprender amando”, sou feliz em afirmar que isto é certo e irrefutável.

 

Há pouco mais de um ano, iniciei um relacionamento que começou de forma bastante curiosa, ate porque foi no meio musical em que a conheci. Até então, a musa dos meus enleios, era apenas a bela maquiadora que nos preparou para a ópera. Linda e sensual, chegou arrastando os olhares de todos meus “concorrentes”, alguns destes bastante atrevidos. Mas um comentário machista de minha parte, feito ao amigo que a apresentara ao grupo, abriu-me as portas para a felicidade.

 

Após os costumeiros contatos de conhecimento, eis que rompemos nosso silêncio amoroso e o beijo inesquecível selou, sem saber que ali brotava mais do que um pequeno envolvimento entre um homem e uma mulher, a união entre duas almas eternas e amantes. Aquele beijo, terno e sôfrego ao mesmo tempo, nos fez sentir as ondas eletromagnéticas serpenteando pela coluna e subindo em direção dos céus. Ascendeu-nos a serpente ígnea da energia criadora. E desde então nosso Amor, que não é egoísta e não trata ao outro desta forma, se expande a cada minuto.

 

Oxalá possa todos que leram e que não leram estas linhas sentir as delícias do sublime Amor. Este do qual falei, este que nutre o mundo de energias positivas, que vibra em paz e sacia todas nossas necessidades. Este que insisto em grafar Amor.

 

 

* Texto dedicado à minha musa, Carol. Te amo, doçura.

Escrito por Paulo Marcelo às 13h19
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